“Você não vai sair de casa sem a minha permissão.”
“Se me deixar, ninguém mais vai me querer.”
“Se não for minha, não será de mais ninguém.”
“Você não precisa estudar nem trabalhar, eu sustento você.”
“Sem mim, você não é nada.”
Essas frases aparecem escritas em papéis que são rasgados, um a um, por alunas da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em um vídeo que circulou nas redes sociais nos últimos dias. A gravação se espalhou rapidamente e provocou debate sobre o impacto do machismo na vida escolar de muitas brasileiras.
A cena é simples. Mulheres seguram cartazes com frases associadas ao controle e à violência psicológica dentro de relacionamentos. Em seguida, rasgam o papel diante da câmera. O gesto simbólico se transformou em um recado direto sobre autonomia, estudo e liberdade.
A ação por trás do vídeo
O vídeo foi gravado em Várzea Alegre, no interior do Ceará, na Escola Figueiredo Correia. A iniciativa fez parte de uma atividade pedagógica organizada em torno do Dia Internacional da Mulher.
As estudantes que aparecem nas imagens não estão relatando histórias pessoais. Elas interpretam frases ouvidas por outras mulheres da comunidade. A ideia surgiu justamente a partir de relatos recorrentes de alunas que enfrentam resistência dentro de casa para frequentar a escola.
A professora Lucivânia Alves explica que a atividade buscou dar visibilidade a essas situações. “”Temos alunas com muita vontade de ir para a escola, mas os maridos chegam em casa e não as deixam ir… decidimos trabalhar essas frases para incentivar e mostrar que a educação é um caminho de liberdade”, afirma Lucivânia Alves, professora da turma.
Segundo ela, o vídeo nasceu como um trabalho de sala de aula, mas acabou ganhando repercussão fora da escola depois de ser compartilhado nas redes sociais.
Histórias de quem voltou a estudar
Para muitas mulheres que frequentam a EJA, voltar à sala de aula significa recuperar oportunidades que ficaram para trás na infância ou na juventude. Entre as participantes da gravação está Kelly Barreto dos Santos, de 45 anos.
Pescadora, ela divide o tempo entre o trabalho e as aulas noturnas. A rotina é puxada, mas o retorno aos estudos trouxe mudanças práticas no dia a dia.
“Antigamente, eu não conseguia ler as palavras. Hoje, eu já consigo… E posso ir ao mercado e pegar meu troco direitinho”, diz.
Kelly conta que recebeu incentivo dentro de casa para voltar à escola. O marido ajudou a reorganizar a rotina para que ela pudesse frequentar as aulas à noite.
Na mesma turma estuda Josefa Borges, de 65 anos. Durante décadas, a vida dela foi dedicada às tarefas domésticas e aos cuidados da família. A escola ficou em segundo plano.
A decisão de aprender a ler e escrever veio apenas mais tarde. Agora, a aposentada celebra cada novo aprendizado conquistado em sala de aula.
“Nunca tive a oportunidade de estudar quando era mais nova. Eu sabia só escrever meu nome mesmo. E agora eu sei bastante conta… somar as contas de matemática, as contas que a professora faz… Eu faço tudo”, conta.
Queda nas matrículas da EJA
A repercussão do vídeo ocorre em um momento delicado para a Educação de Jovens e Adultos no Brasil. Dados do Censo Escolar indicam redução no número de turmas e de estudantes matriculados nessa modalidade.
Levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira mostra que, em 2025, o país teve 734 classes de EJA a menos em comparação com o ano anterior.
A queda aparece também no número total de alunos, especialmente no ensino médio. Em 2024, a modalidade registrava 976.390 matrículas nessa etapa. Um ano depois, o total caiu para 845.627.
A redução de vagas está associada principalmente ao fechamento de turmas em diferentes redes de ensino. Especialistas em educação costumam apontar que fatores como trabalho noturno, dificuldades de transporte, responsabilidades familiares e desestímulo social contribuem para a evasão.
Educação como autonomia
Para educadores que atuam na modalidade, a EJA cumpre um papel que vai além da alfabetização. As aulas funcionam como espaço de convivência, troca de experiências e fortalecimento da autonomia pessoal.
No caso das mulheres, muitas chegam à escola após anos dedicadas exclusivamente ao cuidado da casa ou da família. Outras enfrentaram relacionamentos marcados por controle e restrições.
O vídeo produzido pelas alunas de Várzea Alegre buscou justamente transformar esse debate em imagem. Ao rasgar frases que simbolizam dependência e submissão, as estudantes afirmam o direito de aprender em qualquer fase da vida.
O gesto simples, repetido diante da câmera, acabou ecoando bem além da sala de aula. Para quem participou da gravação, a mensagem é direta. Estudar também é uma forma de liberdade.
Fonte: G1
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