O uso de antibióticos administrados por via inalatória em pacientes sob ventilação mecânica voltou a ganhar destaque após novas pesquisas apontarem ganhos microbiológicos em sua aplicação clínica e por combinar entrega direta do medicamento ao pulmão e potencial redução de efeitos sistêmicos.
O tema, que ganhou força com a publicação de novos estudos nos últimos meses, também foi abordado pelo Dr. Luiz Osório, do Hospital AmericanCor, em palestra apresentada na edição mais recente do World Day of the Critical Lung (WDCL).
No seminário, o especialista discutiu como as evidências atuais podem orientar o manejo de infecções respiratórias graves nas UTIs.
Evidências científicas mais recentes
Uma meta-análise publicada em 2024 na revista Critical Care avaliou 11 ensaios clínicos randomizados envolvendo pacientes críticos com pneumonia associada à ventilação mecânica. O estudo demonstrou que o uso de antibióticos por nebulização, quando combinado à terapia intravenosa, aumentou a taxa de erradicação microbiológica (OR = 2,63). Em contraponto, não houve impacto significativo em mortalidade, tempo de internação ou recuperação clínica.
Outro achado relevante é a segurança. A análise reportou maior ocorrência de broncoespasmo nos pacientes tratados pela via inalatória, enquanto taxas de nefrotoxicidade e mortalidade permaneceram semelhantes às observadas com os antibióticos tradicionais.
Potencial na prevenção da pneumonia associada à ventilação
Além do uso terapêutico, estudos têm investigado se a nebulização pode reduzir a incidência de pneumonia associada à ventilação mecânica (VAP). Uma revisão de 2024, contemplando 2.876 pacientes, mostrou redução aproximada de 33% no risco de VAP entre aqueles que receberam antibióticos inalatórios. Ainda assim, indicadores como mortalidade e tempo de ventilação permaneceram inalterados.
Pesquisadores afirmam que o método pode ter papel específico em cenários de maior risco, mas destacam a ausência de protocolos padronizados e a necessidade de maior uniformidade nos dispositivos utilizados, como o tipo de nebulizador e sua posição no circuito.
A visão do especialista
Durante sua participação no WDCL, o Dr. Luiz Osório avaliou que, embora a literatura aponte avanços importantes, a aplicação da terapia ainda exige cautela.
Segundo ele, “a via inalatória oferece a possibilidade de administrar concentrações elevadas do antibiótico diretamente no local da infecção, algo especialmente relevante em casos envolvendo microrganismos multirresistentes.”
O médico observa, porém, que a técnica ainda depende de infraestrutura adequada e critérios rígidos de seleção. “As evidências mostram benefícios microbiológicos, mas ainda precisamos entender melhor o impacto clínico e identificar os pacientes mais propensos a se beneficiar da abordagem.”
Desafios para adoção nas UTIs
A incorporação da terapia inalatória enfrenta barreiras técnicas que vão desde a padronização dos dispositivos até parâmetros como tamanho de partículas, humidificação do circuito e filtros utilizados. Revisões recentes também chamam atenção para a necessidade de monitoramento constante para evitar resistência bacteriana, risco potencial quando a técnica é aplicada sem critérios claros.
Especialistas apontam que o método pode ser considerado principalmente em infecções causadas por bacilos Gram-negativos ou quando há baixa penetração de antibióticos intravenosos no tecido pulmonar, mas ainda não há consenso para recomendação ampla.
Perspectivas
Com novos estudos e crescente mobilização internacional, o debate sobre antibióticos inalatórios deve permanecer em destaque na terapia intensiva. A participação de profissionais como o Dr. Luiz Osório em eventos científicos globais reforça o papel dos especialistas brasileiros na interpretação das evidências e na busca por estratégias seguras e eficazes no manejo das infecções respiratórias graves.
Sobre o AmericanCor

O Hospital AmericanCor, localizado no Rio de Janeiro, é referência em Terapia Intensiva e possui uma UTI equipada com tecnologia de ponta, além de equipe multidisciplinar especializada em cuidados críticos. A instituição oferece UTI Móvel 24h e atendimento em diversas especialidades clínicas e cirúrgicas, com foco em cuidado integral desde o diagnóstico até o pós-internação.
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