A divulgação do gabarito oficial do segundo dia do Enem 2025 confirmou, nesta semana, a anulação de três questões da prova de matemática e ciências da natureza. A decisão foi tomada após a revelação, feita pelo G1, de que um influenciador educacional havia apresentado itens quase idênticos em uma transmissão ao vivo no YouTube, cinco dias antes da aplicação do exame.
Apesar do impacto do caso, que levantou debates nas redes sociais e gerou receio de cancelamento da prova, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) informou que as notas dos participantes não serão prejudicadas. Isso porque, diferentemente de vestibulares tradicionais, o Enem não atribui pontos fixos por acerto, e sim utiliza a Teoria de Resposta ao Item (TRI), que permite ajustes quando uma pergunta precisa ser anulada.
As três questões retiradas do cálculo final são:
- Fotossíntese: (115 na prova cinza; 121 na amarela; 132 na verde; 123 na azul)
- O Grito: (118 na cinza; 115 na amarela; 135 na verde; 132 na azul)
- Parcelamento de R$ 60 mil: (172 na cinza; 178 na amarela; 168 na verde; 174 na azul)
Segundo especialistas consultados pela reportagem original do g1, a anulação desses itens não altera o desempenho final porque o modelo estatístico do Enem avalia padrões de resposta, dificuldade e coerência das soluções do candidato — e não o simples total de acertos.
Como é calculada a nota do Enem
Ao contrário do que muitos candidatos imaginam, acertar “100 questões” não significa obter “100 pontos”. A nota final não é uma soma aritmética de acertos, e sim um resultado estatístico. Cada item da prova tem um peso diferente, determinado após análise do comportamento coletivo dos participantes.
O cálculo é feito por meio da Teoria de Resposta ao Item (TRI), metodologia adotada desde 2009 e que tem como objetivo tornar a avaliação mais justa e permitir comparações entre edições diferentes do exame.
A TRI leva em conta três fatores principais:
Dificuldade da questão – Itens considerados mais difíceis tendem a valer mais.
Capacidade de discriminação – Questões que diferenciam candidatos bem preparados dos que apresentam desempenho instável ganham mais peso.
Coerência das respostas – O sistema verifica se o padrão de acertos faz sentido. Por exemplo, se um candidato erra questões fáceis e acerta questões difíceis, o algoritmo pode identificar inconsistência — um indicativo possível de chute.
É exatamente por esse motivo que dois participantes com o mesmo número de acertos podem receber notas diferentes. Um estudante que acerta questões difíceis, mantendo regularidade nas questões fáceis e médias, tende a alcançar pontuação maior do que outro que acerte o mesmo total, mas com padrão irregular.
E o que acontece quando uma questão é anulada?
Quando um item é excluído, ele simplesmente deixa de ser considerado no cálculo. A TRI reequilibra automaticamente o conjunto restante de perguntas, redistribuindo as estimativas de dificuldade e consistência. Assim, os participantes não são recompensados nem penalizados pela ausência da questão anulada.
Essa característica da metodologia permite que o Inep preserve a comparabilidade da prova, mesmo diante de imprevistos como erros de formulação ou, como neste ano, suspeitas envolvendo acesso prévio a parte do conteúdo.
Segundo o g1, esse modelo de correção também reduz a chance de empate entre candidatos, já que a nota é apresentada com casas decimais. É possível, por exemplo, que um estudante obtenha 816,4 pontos — valor que dificilmente será idêntico ao de outro concorrente.
Live antecipou perguntas quase idênticas às do exame
A anulação das três questões ocorreu após a revelação de que um “mentor” de vestibulandos apresentou itens extremamente semelhantes aos do Enem durante uma live transmitida em 11 de novembro, cinco dias antes da prova.
De acordo com o g1, ao menos cinco questões exibidas pelo influenciador continham estrutura, enunciado ou valores numéricos iguais aos aplicados na edição oficial. O caso gerou forte repercussão nas redes sociais e alimentou suspeitas de vazamento.
O conteúdo mostrado na transmissão teria sido produzido com base no Prêmio CAPES Talento Universitário, uma avaliação opcional voltada a estudantes de primeiro ano de graduação. O Inep, entretanto, não reconhece qualquer vínculo entre esse concurso e o Enem.
Após a exposição das semelhanças, candidatos passaram a pedir esclarecimentos ao Inep, manifestando preocupação de que o exame pudesse ser invalidado. Diante da situação, a autarquia confirmou apenas a anulação das três questões citadas, sem anunciar medidas mais amplas.
Impacto para os candidatos e próximos passos
A retirada dos itens, segundo especialistas, não compromete a integridade estatística da prova. Como a TRI ajusta automaticamente o cálculo, espera-se que as notas dos participantes se mantenham compatíveis com o padrão histórico do Enem.
Ainda assim, o episódio reacendeu discussões sobre segurança e sigilo do exame — temas que costumam ganhar destaque todos os anos. Até o momento, o Inep não confirmou se abrirá investigação interna, mas reforçou que trabalha para garantir isonomia entre os concorrentes.
Para os candidatos, a orientação é aguardar a divulgação dos resultados e acompanhar possíveis atualizações nos canais oficiais do instituto.
Fonte: G1
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