Festival carioca propõe novas formas de narrar e discute o papel do real no cinema contemporâneo
A primeira edição do FID:RIO — Festival Internacional de Cinema de Não Ficção do Rio de Janeiro — revelou-se não apenas como uma vitrine para o cinema autoral contemporâneo, mas também como um território fértil de reflexão estética e política. Com o tema “Fricções do Desejo”, o festival propôs uma imersão nas tensões entre o íntimo e o político, a linguagem e o corpo, a forma e o conteúdo.
Segundo a cineasta Celina Borges Torrealba Carpi, uma das idealizadoras do evento, a vontade é o ponto de partida de todo gesto criativo. “A potência do documentário autoral reside justamente em sua capacidade de transformar uma experiência pessoal em questão coletiva. Quando uma história íntima encontra forma, ela pode se tornar política”, afirma.
A honestidade como princípio estético
Ao comentar sobre os filmes selecionados para o festival, ela destaca que a curadoria não se baseou em fórmulas ou convenções, mas em uma busca pela honestidade do gesto. “Reunimos obras que colocam em choque o íntimo e o político, a forma e o conteúdo, o corpo e a linguagem. O desejo, entendido aqui como força motriz da criação”, explica.
O FID:RIO propôs, assim, um olhar renovado sobre o papel do documentário em tempos de manipulação massiva da realidade. Para Celina Torrealba, o cinema de não ficção precisa lidar com o colapso da verdade como algo absoluto.
“O cinema de não ficção contemporâneo vive um momento de reconfiguração radical. Longe da ideia de ‘registro da realidade’, ele se afirma enquanto linguagem que interpreta, inventa e tensiona o mundo”, argumenta.
Autoficção e o papel da ausência
Durante o festival, o laboratório #LINK:RIO aprofundou essa abordagem ao acompanhar nove projetos documentais em um processo intensivo de tutoria. A pergunta central que guiou o trabalho com os participantes era: “Por que esse filme só pode ser feito por você?”.
A ausência, inclusive, foi um dos elementos mais explorados tanto na mostra quanto no laboratório. Segundo Celina Borges Torrealba Carpi, filmes que trabalharam o silêncio, o que não pode ser dito ou mostrado, foram alguns dos mais impactantes. “Usar o silêncio como estrutura.
Fazer do invisível a espinha dorsal da narrativa. Ao lidar com a ausência, o filme revela algo essencial sobre a experiência humana — e sobre o gesto de filmar”, defende.
Curadoria aberta ao risco e à experimentação
Sobre os limites da curadoria frente a propostas formais que escapam às referências tradicionais, Celina explica que o processo exigiu abertura e escuta constante. “O festival nasce comprometido com uma geração de cineastas que deseja romper com os limites da representação e propor novas formas de olhar para o mundo”.
Além de sua proposta estética, o festival carrega uma identidade carioca. Segundo a cineasta, o Rio de Janeiro molda o FID:RIO com sua tradição de invenção artística e contradições criativas. “Ao unir a força do festival com a potência criativa da cidade, ampliamos as possibilidades do cinema de não ficção como espaço de invenção estética, pensamento crítico e pulsação coletiva”, observa.
A potência do Rio na cena latino-americana
Sobre o papel da cidade no circuito latino-americano de cinema de invenção, ela é enfática: “O Rio sempre teve um papel central na produção cultural brasileira. Com o FID:RIO, buscamos reafirmar o Rio de Janeiro como cidade criativa — uma metrópole onde a mistura, a contradição e a invenção fazem parte da paisagem e da cultura”.
Cinema com propósito: conheça Celina Borges Torrealba Carpi
Celina é uma cineasta e produtora brasileira, com formação em Cinema pela Sorbonne e mestrado em Documentário pela NYU. Sua carreira é focada em cinema autoral com relevância política e cultural. Também atua no terceiro setor, em organizações dedicadas a direitos humanos, desenvolvimento urbano e sustentabilidade.
Como produtora, participou de filmes premiados internacionalmente, como Wasp Network, The Lighthouse e A Vida Invisível. No Brasil, produziu Arte da Diplomacia (2023), documentário sobre diplomatas brasileiros, e dirige seu primeiro longa documental, Ainda Sei Dançar (2025).
É fundadora da produtora Donna Features, que trabalha com narrativas ligadas à resistência e transformação social. Além disso, criou o projeto #LINK:RIO, laboratório gratuito para o desenvolvimento de documentários no Rio de Janeiro, em parceria com o FIDBA e o FID:RIO.
Foto: Divulgação / Acervo Pessoal
