As mudanças anunciadas para a distribuição de turmas do Ensino Fundamental em Porto Alegre continuam gerando mobilização intensa. Nesta terça-feira (25), comunidades de escolas municipais e estaduais se reuniram em um ato que começou no Palácio Piratini e seguiu até a Prefeitura. A manifestação cobrou a suspensão da extinção do 6º ano na rede municipal e do 1º ano nas escolas estaduais, além de exigir que o governador Eduardo Leite (PSD) e o prefeito Sebastião Melo (MDB) dialoguem com as famílias.
O acordo firmado entre as Secretarias de Educação de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul estabelece que, a partir de 2026, 12 escolas municipais perderão o 6º ano e 10 escolas estaduais deixarão de ofertar o 1º ano. A proposta inicial atingia 21 escolas estaduais, mas houve revisão após pressão popular. Mesmo assim, a reorganização segue provocando preocupação entre professores, estudantes e responsáveis.
De acordo com o planejamento, as turmas de 6º ano migrarão para a rede estadual, enquanto o 1º ano ficará sob responsabilidade do Município. Com isso, estudantes que hoje cursam o 5º ano em escolas municipais serão direcionados automaticamente para escolas estaduais. A transferência, porém, é vista como problemática por diversas famílias.
Distância e condições do trajeto geram tensão
Um dos principais pontos de insatisfação é o deslocamento. Embora o governo argumente que as escolas receptoras estão na mesma região, professores e familiares afirmam que os percursos são longos, íngremes e atravessam áreas com maior risco.
Um exemplo é o da Escola Estadual Araújo Viana, no Morro da Cruz. Para avaliar o impacto real da mudança, a equipe pedagógica percorreu o trajeto que será feito pelos alunos. A diretora Fernanda Remião Schneider descreve o percurso como desafiador. “Nós fomos subindo o Morro da Cruz. É um percurso muito difícil, são ruas estreitas e tem locais ali também perigosos. Tem o tráfico, a gente sabe. É muito longe para as crianças, é mais de um de 1 km”, explica.
Além disso, ela chama atenção para fatores climáticos e de segurança. Segundo Fernanda, estudantes sairão de casa antes do amanhecer ou retornarão após o anoitecer, o que aumenta o risco. “Porque quando eles forem, dependendo do horário, às vezes é escuro, então eles subirem, descerem, é perigoso”, afirma.
A avó Rosangela dos Santos Silva enfrenta o mesmo problema. Seus dois netos estudam na Araújo Viana, mas o mais novo será transferido. “Pra nós, família, vai ser muito difícil, porque é quase um quilômetro e meio da minha casa até a escola que ele vai ter que ir”, relata. O rompimento do vínculo entre os irmãos também preocupa. “É inviável a distância para locomover eles, para colocar eles na escola. E o bom é manter eles juntos, porque um irmão cuida do outro”, diz.
Sobrecarga das famílias e falta de suporte pedagógico
A mudança também afetará a rotina de mães responsáveis por mais de uma criança. A situação de Sabrina Koetz ilustra essa dificuldade. Ela tem três filhos em duas instituições diferentes e, com a reorganização, terá de gerenciar três trajetos diários distintos. “Eu sou mãe solteira e eu trabalho. Trabalho para alimentar os meus filhos. Como eu vou conseguir conciliar meu trabalho com três escolas diferentes? Não tem como isso”, afirma.
Além da logística, Sabrina teme que seu filho com TDAH perca o acompanhamento pedagógico disponível na rede municipal. Atualmente, ele conta com monitoria em sala, recurso que, segundo ela, não existe na rede estadual. “Isso só escola municipal proporciona e ele vai perder tudo isso se for pra estadual. Escola estadual não tem recursos e nem suporte para crianças com TDAH, autistas, então vai prejudicar muito mesmo”, diz.
Risco de evasão preocupa educadores
Outro impacto apontado por quem atua nas escolas é o possível aumento da evasão escolar. Embora o governo alegue que o reordenamento busca organizar melhor a rede, professores afirmam que a ruptura do ciclo educativo afeta o vínculo dos estudantes com a escola.
Marcus Vianna, professor da Escola Municipal Martim Aranha, alerta para o risco. “A nossa escola cresceu com essa proposta do Ensino Fundamental completo e agora está sendo retirada essa possibilidade das nossas crianças”, diz. Segundo ele, a comunidade já enfrenta desigualdades e carece de políticas de permanência. “A nossa comunidade é uma comunidade carente, que necessita de educação, de cultura. A Grande Cruzeiro aparece mais nas páginas policiais do que qualquer coisa, agora a notícia é de que estão tirando turmas da nossa escola”, lamenta.
Escolas afetadas pela reorganização
Estaduais que perderão o 1º ano em 2026:
- EEEF Araújo Viana
- EEEF Baependi
- EEEF Coelho Neto
- EEEF Dr. Martins Costa Junior
- EEEF Luiz Azambuja Soares
- EEEF Ministro Poty de Medeiros
- EEEF Osório Duque Estrada
- EEEF Profa. Lea Rosa Cecchini Brum
- EEEF Rafael Pinto Bandeira
- EEEM Maria Cristina Chiká
Municipais que deixarão de ofertar o 6º ano:
- EMEF Jean Piaget
- EMEF Ver. Antônio Giudice
- EMEF José Mariano Beck
- EMEF Presidente João Belchior Marques Goulart
- EMEF Profª Judith Macedo de Araújo
- EMEF João Antonio Satte
- EMEF Lauro Rodrigues
- EMEF Aramy Silva
- EMEF Gabriel Obino
- EMEF Nossa Senhora de Fátima
- EMEF Ver. Martim Aranha
- EMEF América
Comunidades afirmam falta de diálogo com governo e Prefeitura
Além dos impactos práticos, educadores criticam a forma como a decisão foi tomada. Rosane Zan, presidente do Cpers Sindicato, reforça que a educação só funciona com participação da comunidade. “Eu sempre digo que nós, na educação, não fazemos a educação, tanto professores, quanto funcionários de escola, sem a comunidade escolar. São os pais, os nossos alunos, alunas que fazem a educação do Estado”, afirma.
Ela também aponta que a disputa em torno da municipalização já dura mais de três décadas. “A secretária Raquel não conhece as comunidades dos mais diferentes pontos aqui de Porto Alegre. Aí vem, de cima para baixo, utilizando esse mecanismo, e transfere os 1º anos para a rede municipal e os 6º anos para a rede estadual. Mas nós não vamos deixar”, diz.
A diretora Marcia Apolo Ferreira, da Atempa, relata que as escolas tentam dialogar com a Prefeitura há meses. No entanto, reuniões foram desmarcadas sem explicações. “A gente marcou uma conversa e eles desmarcaram. Nós estamos fazendo o levantamento dos impactos, já há uns dois meses”, afirma.
O relato da diretora Fernanda, da Araújo Viana, reforça essa percepção. Segundo ela, a comunicação do Estado foi brusca e sem esclarecimentos. “Foi feita uma reunião e foi colocada essa situação. Sem grandes esclarecimentos. Só foi na realidade colocado para nós que seria assim, nós não tivemos como falar nada, questionar nada”, relata.
Fonte: Sul 21
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