A convivência com professores negros ao longo da vida escolar influencia de forma direta o percurso educacional e profissional de estudantes negros no Brasil. A conclusão vem de um estudo que acompanhou cerca de dois milhões de alunos por 12 anos e identificou ganhos consistentes na conclusão dos estudos e na renda futura quando há maior presença de docentes negros nas escolas.
Para o advogado e sociólogo José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, a sensação de acolhimento sempre foi evidente. “Uma presença negra na sala de aula é encorajadora para um aluno negro. Dá mais segurança e estímulo. Fortalece o desejo e a disposição para estudar”, afirma. Ao lembrar do período em que foi aluno, Vicente diz que se sentia “mais seguro e aliviado” ao reconhecer um professor negro à frente da turma.
Como docente, ele observou o efeito do outro lado. “Eu me vi como uma peça importante na recepção desses alunos, que se sentiam representados e participantes. E o pertencimento e o acolhimento são potentes demais”, relata.
Em um país onde pessoas negras têm 53% menos chance de concluir o ensino superior e recebem, em média, 41% menos que pessoas brancas, o estudo buscou medir de forma objetiva o impacto da composição racial do corpo docente sobre essas desigualdades.
Resultados medidos ao longo de 12 anos
A pesquisa foi conduzida pelo economista Pedro Lopes, doutorando da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas. Ele utilizou bases de dados como Censo Escolar, Saeb e Enem, acompanhando dois grandes grupos de estudantes desde a escola até a entrada no mercado de trabalho, entre 2012 e 2023.
Ao comparar, dentro das mesmas escolas, alunos com perfis semelhantes expostos a diferentes proporções de professores negros, o pesquisador identificou um efeito causal claro. O aumento da presença de docentes negros de 0% para 50% elevou em 1,9% a chance de conclusão do ensino médio, em 3,9% o ingresso no ensino superior e em 5,2% a conclusão da graduação aos 25 anos. Houve também crescimento médio de 2,3% nos rendimentos do trabalho na vida adulta, sem impacto negativo sobre alunos brancos.
Embora os percentuais pareçam modestos à primeira vista, Lopes destaca que eles representam uma redução expressiva das desigualdades raciais. Segundo o estudo, a diferença educacional entre alunos brancos e negros cai cerca de 30%, enquanto a disparidade de renda diminui em torno de 60%. “Os resultados ilustram que os professores negros já têm importância na redução das desigualdades e que há potencial quando a composição racial do corpo docente é similar à da população”, afirma.
O efeito foi ainda mais forte entre estudantes que apresentaram baixo desempenho nos primeiros anos escolares, justamente o grupo com maior risco de evasão. O levantamento também apontou melhora em disciplinas como matemática, mesmo quando o professor negro não era o responsável pela matéria, indicando um impacto mais amplo sobre engajamento e expectativas.
Dados do Censo Escolar de 2024 ajudam a contextualizar o cenário. Entre os alunos com raça declarada, 56,8% se identificam como negros. Entre professores, esse percentual é de 44,4%. Para Lopes, a diferença mostra espaço para políticas de ampliação da diversidade docente. Ele explica que a presença de professores negros “atualiza a crença dos estudantes negros sobre educação”, estimulando maior esforço e melhores resultados futuros. “Professores podem dar mais atenção, suporte e mentoria para alunos que compartilham da sua raça.”
A psicóloga social Cida Bento lembra que pesquisas anteriores já demonstraram expectativas mais baixas de professores brancos em relação a alunos negros. “Isso significa que investem menos nesses alunos.” Na avaliação dela, a interação entre professores e estudantes negros tende a produzir o efeito oposto. O docente negro inspira o aluno a “ver outro futuro para ele”, fortalecendo autoestima e sentimento de pertencimento à escola.
O economista Michael França observa que o estudo “aponta mais um caminho para diminuir as lacunas raciais em termos de aprendizagem no Brasil”. Para ele, parte do resultado está ligada às experiências de vida do professor negro. “Esse conhecimento tácito ele não tem”, diz, ao se referir a docentes formados em contextos sociais distintos. “O professor negro pode trazer mais esse conhecimento tácito para dentro da sala de aula.”
Relatos pessoais reforçam os dados. O advogado Daniel Teixeira, diretor-executivo do Ceert, lembra situações de racismo que não foram acolhidas por professores durante sua infância. “Quando há um professor negro, ele em geral vai perceber essas situações de outra forma.” Para Teixeira, além da dimensão protetiva, existe a identificação. “Se a educação reproduz o racismo, ela não só deseduca como desumaniza.”
Lopes afirma que políticas de cotas contribuem para ampliar a presença de professores negros, mas ressalta que outras medidas são necessárias. “Outras políticas também podem ajudar, como tornar a carreira docente mais atrativa, implementar programas de educação antirracista nas escolas e garantir que o material didático valorize a cultura e identidade negra.” O estudo indica que representatividade, quando sustentada por políticas públicas, produz efeitos concretos e duradouros.
Fonte: Folha de São Paulo
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