Empreendedor e referência no setor de motocicletas, Rodrigo Borges Torrealba compartilha sua visão sobre os obstáculos, políticas e tendências que podem impulsionar a adoção de motos elétricas no país
O Brasil tem visto uma lenta, mas constante, movimentação em direção à mobilidade elétrica. Carros híbridos e elétricos já começam a ganhar visibilidade, mas o segmento de motocicletas segue engatinhando. De acordo com a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), em 2024 foram emplacadas pouco mais de 7 mil motos elétricas em todo o país, um número pequeno quando comparado aos mais de 1,6 milhão de modelos a combustão vendidos no mesmo período.
Para Rodrigo Borges Torrealba, empreendedor e CEO da MotoX, esse descompasso não é falta de interesse do consumidor, mas sim resultado de um ecossistema ainda pouco preparado para acolher a tecnologia. “O brasileiro está aberto à mudança. O que falta é um ambiente que torne essa transição possível: preço competitivo, infraestrutura mínima e apoio regulatório”, afirma.
Preço ainda é barreira central
O custo das motos elétricas no Brasil segue muito acima da média internacional. Scooters simples, que em países asiáticos custam o equivalente a US$800, no Brasil não saem por menos de R$8 mil a R$10 mil. Modelos intermediários podem facilmente dobrar de valor.
Segundo Torrealba, essa diferença ocorre por dois fatores principais: tributação elevada e escala de produção reduzida. “Enquanto China e Índia produzem milhões de unidades por ano, aqui trabalhamos com lotes pequenos, muitas vezes importados. Isso encarece o produto e o afasta do bolso do consumidor médio”, explica.
Falta de infraestrutura de recarga
Outro entrave relevante é a ausência de pontos de recarga públicos. Hoje, a maior parte das motos elétricas vendidas no país depende de tomadas convencionais, o que limita seu uso a percursos urbanos curtos.
“O usuário quer segurança de que não ficará sem energia no meio do trajeto. Sem uma rede de recarga acessível, muitos desistem da ideia”, afirma Torrealba. Ele lembra que, em países como a Índia, foram criadas estações de troca rápida de baterias, um modelo que poderia ser replicado no Brasil em parceria com empresas de energia e distribuidoras.
Incentivos tímidos do poder público
Enquanto países europeus oferecem subsídios diretos na compra de veículos elétricos, além de isenção de taxas de licenciamento e descontos em pedágios, no Brasil os incentivos ainda são pontuais e concentrados em alguns estados.
“Sem política nacional consistente, o mercado anda a passos lentos. Precisamos de medidas que envolvam desde a redução de impostos até programas de financiamento especiais para o consumidor final e para empresas que queiram eletrificar suas frotas”, analisa Torrealba.
Empresas podem puxar a virada
Apesar dos obstáculos, algumas empresas de logística e delivery já testam frotas elétricas em capitais como São Paulo e Curitiba. A economia é expressiva: estima-se que uma moto elétrica gaste, em média, R$0,04 por quilômetro rodado, contra R$0,20 de uma moto a combustão, o que representa cerca de cinco vezes mais economia.
Para Torrealba, esse é um nicho estratégico. “As empresas estão percebendo que, além de reduzir custos, investir em motos elétricas melhora a imagem corporativa, já que consumidores valorizam marcas sustentáveis. Esse movimento pode servir de alavanca para acelerar a adoção no país.”
Consumidor quer, mas precisa de confiança
Pesquisas realizadas em 2024 apontam que 67% dos brasileiros estariam dispostos a comprar um veículo elétrico, desde que houvesse garantia de autonomia e suporte técnico adequado.
“Não basta vender a moto. É preciso oferecer pós-venda, peças, assistência e informações claras sobre a durabilidade das baterias. Sem essa confiança, o consumidor adia a compra”, alerta Torrealba.
Ele acrescenta que os avanços recentes em baterias de lítio já permitem autonomias de até 150 km em scooters e mais de 200 km em modelos de maior porte, números que atendem bem ao uso urbano.
Um futuro de oportunidades
Apesar do cenário atual, Torrealba é otimista quanto ao futuro das motos elétricas no Brasil. Ele acredita que os próximos cinco anos serão decisivos. “Com a combinação certa de políticas públicas, inovação tecnológica e engajamento das empresas, podemos ver uma virada de mercado já nesta década. O potencial é enorme, principalmente em cidades que enfrentam congestionamentos crônicos e altos níveis de poluição”.
Para o empreendedor, o desafio não é tecnológico, mas estratégico: “As motos elétricas já são realidade em boa parte do mundo. O que precisamos é criar condições para que essa realidade chegue ao dia a dia do brasileiro comum”.
Sobre Rodrigo Borges Torrealba
Empreendedor e apaixonado por motocicletas, Rodrigo Borges Torrealba é CEO da MotoX Comércio de Motos Ltda., referência no setor de duas rodas no Brasil. Formado em Administração, possui MBAs em Negócios Marítimos e Administração Financeira.
Antes de atuar no mercado de motocicletas, fez carreira na Cia Paulista de Comércio Marítimo, onde ocupou cargos de Gerente e Diretor Comercial para a Europa. Sua experiência internacional e visão estratégica sustentam sua atuação como uma das vozes mais relevantes sobre inovação e sustentabilidade no setor.
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