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Uso da internet na primeira infância cresce no Brasil e expõe desigualdades sociais

Equipe Sociedade Civil pela Educação by Equipe Sociedade Civil pela Educação
23 de dezembro de 2025
in Educação
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Uso da internet na primeira infância cresce no Brasil e expõe desigualdades sociais
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O acesso à internet entre crianças da primeira infância mais do que dobrou no Brasil em menos de dez anos. Em 2015, 11% das crianças de até 5 anos utilizavam a rede; em 2024, o índice chegou a 23%. Os dados mostram ainda que 44% dos bebês de até 2 anos e 71% das crianças de 3 a 5 anos já têm contato com a internet. As informações constam do estudo Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais, publicado pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI) e divulgado nesta terça-feira (17).

O levantamento reforça recomendações já consolidadas na área da saúde. A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta que crianças menores de 2 anos não sejam expostas a telas. Para a faixa etária entre 2 e 5 anos, a indicação é limitar o uso a, no máximo, uma hora por dia, sempre com a supervisão de um adulto responsável.

Desigualdade amplia exposição às telas

A pesquisa evidencia que o avanço do acesso não ocorre de forma homogênea. Crianças de famílias de baixa renda são as mais expostas ao uso excessivo de telas. Segundo o estudo, 69% das crianças nesses domicílios passam tempo acima do recomendado diante de dispositivos digitais. O dado revela como a desigualdade social influencia diretamente os hábitos digitais na primeira infância.

Quanto menor a renda familiar, maiores são as chances de as telas ocuparem o lugar de atividades fundamentais, como o brincar livre e o convívio presencial. Esses elementos são apontados por especialistas como essenciais para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças nos primeiros anos de vida.

Uma das coordenadoras da publicação, a professora associada sênior da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto, Maria Beatriz Linhares, avalia que “o tempo excessivo de tela na primeira infância, especialmente entre crianças de famílias de baixa renda, revela um contexto de sobrecarga e falta de apoio às famílias”. Segundo ela, “a ciência é clara: sem interação humana, sem brincar e sem presença, as crianças perdem oportunidades essenciais para desenvolver linguagem, vínculos afetivos, regulação emocional e habilidades sociais”.

Os resultados dialogam com a pesquisa Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. O estudo ouviu 822 cuidadores de crianças de 0 a 6 anos e identificou que 78% das crianças de 0 a 3 anos são expostas às telas diariamente, mesmo com o reconhecimento, por parte dos responsáveis, da importância de estabelecer limites.

Efeitos no desenvolvimento cerebral

O material divulgado pelo NCPI aponta que o uso intenso de mídias digitais está associado a alterações na anatomia do cérebro infantil. Entre os possíveis impactos estão prejuízos ao processamento visual e a funções cognitivas como atenção voluntária, reconhecimento de letras e cognição social.

A professora Maria Thereza Souza, do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade da USP, explica que tanto a qualidade do conteúdo quanto o uso passivo e excessivo das telas interferem em áreas cerebrais relacionadas à linguagem, à regulação das emoções e ao controle de impulsos. “A exposição a conteúdos inapropriados, assim como o uso passivo de telas sem linguagem adequada, podem acarretar prejuízos ao desenvolvimento. Até mesmo desenhos animados podem estar associados a problemas de atenção em crianças entre 3 e 6 anos”, afirma.

O estudo também chama atenção para os riscos da exposição precoce a conteúdos violentos. Esse tipo de material pode reduzir a atividade de estruturas cerebrais responsáveis pela regulação do comportamento hostil e aumentar a ativação de áreas ligadas à execução de planos agressivos. Videogames violentos e conteúdos semelhantes aparecem associados a maior risco de comportamentos hostis, dessensibilização à violência, ansiedade, depressão, pesadelos e maior aceitação da violência como forma de resolução de conflitos.

Políticas públicas e mediação familiar

Diante do cenário, o NCPI defende a adoção de políticas públicas intersetoriais que articulem saúde, educação, assistência social e proteção de direitos. Entre as recomendações estão campanhas de sensibilização sobre o uso responsável das tecnologias, formação qualificada de profissionais, fiscalização da classificação indicativa e mecanismos de proteção contra conteúdos inadequados e publicidade abusiva.

O estudo também destaca a importância de fortalecer redes de apoio às famílias, ampliar a oferta de espaços públicos para o brincar e promover a educação digital desde os primeiros anos de vida. A proposta é garantir ambientes mais equilibrados, que favoreçam vínculos reais e experiências fundamentais ao desenvolvimento infantil.

As pesquisadoras ressaltam ainda o papel central de pais e cuidadores na mediação ativa do uso de dispositivos digitais. Entre as práticas recomendadas estão estabelecer limites de tempo adequados à idade, evitar o uso de telas antes de dormir ou durante as refeições, priorizar brincadeiras e interações presenciais, acompanhar o conteúdo consumido, manter zonas livres de tela em casa e adotar, como adultos, um uso consciente da tecnologia.

O estudo reúne evidências de pesquisas nacionais e internacionais, incluindo a TIC Kids Online Brasil, diretrizes da Organização Mundial da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria, além de estudos revisados por pares sobre os efeitos da exposição às telas no desenvolvimento infantil.

Fonte: Agência Brasil
Foto: https://br.freepik.com/fotos-gratis/filhos-medios-com-dispositivos-internos_16923078.htm

Tags: tecnologia
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